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Histórias inspiradoras de pessoas que investiram na criatividade e empreenderam seus talentos.

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Elieser Pereira

Arte para o desenvolvimento

O primeiro contato com a cultura periférica veio ainda na adolescência, aos 16 anos. E foi um projeto cultural, no fundo da casa de um amigo, que o conectou à temáticas como cidadania e empatia, com as quais pouco se familiarizava. A partir daí, seu talento para a música e o diálogo se afloraram dando início a uma trajetória construída em projetos de arte e educação. Como nada é por acaso, a produção cultural surgia naturalmente em sua vida, mas tinha certa resistência da sua família. Hoje ele vive da música e da produção cultural, e oportunidades surgem não só para ele, mas para muitos jovens que participam de seus projetos e iniciativas.

Dialogar, ouvir, entender e acolher… Esses verbos ecoam como um mantra na vida de Elieser Pereira, 36 anos, produtor cultural, compositor, instrumentista, cantor de rap e mediador de conflitos, nascido e criado na periferia de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Verbos que experimentou desde seus 13 anos quando vendia picolé, verduras, sacos de lixo, entregava panfletos ou trabalhava como servente de pedreiro. Desde muito jovem, também viu mais de 36 amigos perderem suas vidas por causa de conflitos entre gangues.

Atualmente, ele estuda Pedagogia. Analisa que é fundamental entender a diversidade do jovem para poder alcançá-lo e, justamente, acolhê-lo para evitar situações como as quais vivenciou no passado.

“Vou dar um exemplo… Não adianta apenas eu produzir e divulgar um evento cultural. O jovem não vai. Para que eu possa atuar hoje como produtor e fazer algo para esse público, é preciso estabelecer uma relação de confiança e isso só é possível ao ouvi-lo. É preciso inserir as demandas deles de forma acolhedora no evento”, explica.

As vivências ligadas à empatia surgiram quando ele tinha mais ou menos 16 anos, época em que ele participou de um projeto chamado “Núcleo de Cultura Periférica”, que funcionava no fundo da casa de um amigo e que tinha como objetivo, a troca de ideias sobre assuntos relacionados à cultura de periferia. Lá, ele começou a aprender sobre as manifestações culturais que já aconteciam, como o Hip Hop. Foi nessa época que eu passei a ter um entendimento melhor sobre a nossa sociedade e sobre cidadania”, relembra.

Por volta de 2000, esse Núcleo criou a primeira casa de Hip Hop de Ribeirão Preto. Elieser, que é músico e instrumentista (toca violão e baixo), juntamente com seu grupo, promoveu oficinas de grafite, de DJ, de Break e de Rap.

“Foi nesse período que eu aprendi a articular e a organizar projetos. Aí que aprendi a linguagem dos editais e das políticas públicas. Esse foi meu início com a produção cultural”, orgulha-se.

Com o tempo, ele passou a ser convidado por algumas instituições para atuar tanto como mobilizador de juventude como coordenador de projetos.

“O primeiro trabalho fora do Núcleo de Cultura Periférica foi na Casa de Apoio do Egresso, onde eu dava oficina de música para os caras maiores que tinham acabado de sair da prisão. O objetivo era reinseri-los na sociedade”, conta. A partir daí, universidades e o Sesc passaram a convidá-lo para palestrar sobre a cultura da periferia e manifestações artísticas.

Aos 21 anos, Elieser se casou. Ele ainda não se considerava um produtor cultural e, paralelamente, trabalhava na distribuição de uma marca de skate, esporte pelo qual se dedicava desde seus 15 anos. Três anos depois, o seu primeiro filho nasceu prematuro. Confessa que teve que abrir mão desse emprego para cuidar do filho recém-nascido. Mas foi a partir dessa situação que decidiu focar no trabalho de produtor cultural, escrevendo projetos, principalmente, para o Sesc e para um centro cultural que estava abandonado. Até que…

“Fui convidado pelos organizadores de uma Feira do Livro aqui de Ribeirão para ser oficineiro para jovens e ensinar Hip Hop. Só que um dos coordenadores do projeto recebeu outra proposta de trabalho e precisou largar o serviço. Com isso, eu passei a indicar nomes e dar soluções para o desenvolvimento de outras atividades culturais. E aí virei o curador deste trabalho, que, por dia, recebia mais de mil e trezentos alunos de escolas públicas estaduais e municipais. Foi quando eu comecei a fazer meu nome como produtor cultural.”

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No entanto, como acontece com muitos outros profissionais da cultura, nessa época, ele não recebeu apoio da família.

Além do trabalho de distribuição de skates, eu havia atuado num escritório de contabilidade. Até ganhava uma grana boa, mas larguei para trabalhar com o que gosto. Sempre tive uma relação boa com minha família, mas eles não entendiam o que eu fazia como produtor cultural. Eles também se preocupavam porque, no início, o trabalho não era estável. Em alguns meses pintava o que fazer, mas em outros não, explica. Como ele já era casado e sua companheira tinha um trabalho fixo, essa situação serviu de porto seguro por um tempo. Depois de três ou quatro anos batalhando, a produção cultural começou a vingar.

Mesmo assim, as pessoas à sua volta ainda tinham dificuldade em entender o que ele fazia, por mais que desse exemplo das atividades, como organizar um curso, produzir um mural de graffiti, cuidar de toda a estrutura de um show, acertar as questões de direitos autorais dos músicos e assuntos de contratação de profissionais. Foi só depois de trabalhar em grandes iniciativas da cidade e de começar a aparecer na TV, que seu trabalho passou a ser mais compreendido e valorizado.

Além da produção cultural, Elieser também desenvolve outra importante função: a mediação de conflitos, atividade abraçada desde muito jovem e que dialoga, segundo ele próprio, perfeitamente com suas funções na área cultural.

O lance de ser compositor e cantor de Hip Hop ampliou as minhas ideias, o meu discurso e a minha visão sobre situações que aconteciam na minha comunidade. E por me considerarem “neutro”, sempre fui chamado para dialogar e trocar ideias com os envolvidos”, explica. Essa outra forma de arte já era empreendida desde os seus 16 anos, quando fazia rádio comunitária e transmitia ideias positivas para os moradores. Ele era chamado para atuar como mediador nas escolas da região, em casos que incluíam tráfico, conflitos e violência.

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Entre tantas situações, ele mediou conflitos entre jovens e seguranças em uma praça onde aconteciam muitas brigas.

“Eu formei um time de adolescentes mediadores. Na verdade, eles nem precisaram atuar como mediadores: bastou uma abordagem mais humanizada e inclusiva. Eram jovens abordando jovens, mas nunca com um olhar de superioridade. De forma bem tranquila, conseguimos resolver as questões, sempre dialogando para manter aquele cidadão no espaço público.”

E essa sua experiência o levou a atuar junto com o Ministério Público nos chamados “rolezinhos”, ações que aconteceram por volta de 2014 e 2015, e que movimentava grandes grupos de jovens para dentro de shopping centers.

“A única forma que encontravam para conter a situação era aumentando o número de seguranças e de policiais. E eu vim com a provocação de que os shoppings e o município deveriam investir na realização de projetos sociais inclusivos para os jovens, melhorando espaços de lazer e de convivência. Aí eu passei a atuar em uma comissão para entender e analisar as ações dos shoppings, da Polícia Militar e das escolas para dar conta dessa problemática.”

Recentemente, Elieser expandiu ainda mais seu trabalho ao falar com os jovens por meio da televisão. Há pouco mais de um ano, ele divide a apresentação, faz o roteiro e participa da produção do programa Papo de Futuro, exibido nas TVs – aberta e cabo – e que sempre, de forma positiva, permite que o jovem exponha suas ideias e protagonize esse espaço.

“Quando eu fui convidado para desenvolver esse trabalho, eu só via na televisão matérias negativas falando sobre os mais novos, sempre envolvidos em violência, quando eram presos ou se envolviam em brigas. Aí eu vi uma grande oportunidade para dar continuidade ao trabalho de dialogar, ouvir e entender o que eu já desenvolvia no Rap, no Hip Hop ou em outras áreas da cultura, além de conseguir também, dar chance de trabalho na TV para alguns desses jovens, orgulha-se.

E assim Elieser continua sua trajetória, com visão ampla e aguçada, sempre abrindo portas para que jovens tenham oportunidades de aprender coisas novas, conhecer sua área de trabalho e ter a chance de vivenciar (ou recriar) o conceito que acredita e dissemina sobre Cultura:

Cultura é compreensão do mundo, é conhecer o outro e saber de onde seus costumes vieram… É conhecer coisas comuns sobre a família nordestina, sobre o queijo de Minas, sobre a tapioca baiana e porque existe a Folia de Reis. É se conhecer melhor e conhecer melhor o outro. É entender o passado para influenciar o futuro e viver melhor no presente. A cultura promove essa diversidade sobre o que não temos clareza. No fim, a gente é um pedaço de cada um que conhecemos e nos modifica, e isso transforma nossa sociedade.

Por falar nisso, em seu atual projeto realizado em parceria com o Ministério Público, ele faz curadoria de ações para ocupar o Centro de Ribeirão Preto. São vários eixos interconectados como moradia, trabalho e empreendedorismo, urbanismo e ações culturais em lugares públicos, atividades que até então eram impedidas de serem realizadas, e que agora terão oportunidades de se profissionalizar e ganhar espaço na Economia Criativa. Não há dúvidas de que esta será uma nova e bem sucedida empreitada!

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