Atitude+

Histórias inspiradoras de pessoas que investiram na criatividade e empreenderam seus talentos.

5846f184 criatividade para prosperidade lovatto 1

Edson Lovatto

arte para se reinventar

Já se viu numa situação de trabalho em que tivesse muito foco e dedicação, e aquilo fizesse parte de você, ou seja, paixão mesmo? Esse sentimento também vale para um hobby ou atividade que goste muito de fazer. É assim que se sente Edson Carlos Lovatto Junior, conhecido como Lovatto no meio da Criação. Artista, 36 anos, vive da arte de desenhar, e se considera extremamente feliz por trabalhar com isso.

“Não tenho nenhum pouco de pudor em dizer que, depois da minha família e da minha esposa, arte é tudo para mim. Sou um cara que precisa muito desenhar. É como me sinto vivo, me sinto útil e produtivo quando estou criando”, explica o artista, mas pondera dizendo que alguns de seus amigos e colegas de profissão são mais “loucos” que ele, porque não param de criar nem mesmo nos finais de semana.

“Gosto de me doar ao máximo a cada trabalho novo. No fim das contas, para mim é um processo muito visceral, me consome muita energia. Então, preciso de umas áreas de escape e de uns momentos de descanso para equilibrar corpo e mente. Desenhar é tudo para mim, desde pequeno. Sinto-me um cara muito privilegiado por poder ganhar a vida com isso”, orgulha-se.

Nascido na cidade de São Bernardo do Campo e criado em Santo André, ambas cidades da região do ABC, em São Paulo, Lovatto se lembra que suas brincadeiras de infância sempre foram relacionadas com desenhos.

“Sempre fui um cara de temperamento bem tranquilo. Não costumava brincar na rua, de vez em quando com futebol. Sempre fui um moleque de casa. Pegava um pacote de papel sulfite e uma caixa de giz de cera que minha mãe me dava e passava o dia inteiro desenhando”, recorda-se.

Além disso, ele se lembra que era bem nerd e que estudava porque acreditava que a educação serviria para se preparar para o futuro. Até tive uma pequena fase de baladeiro no final da minha adolescência e começo da fase adulta, mas durou pouco”, comenta dando risada.

Apesar dos desenhos serem algo natural em sua vida, em 2004, Lovatto se formou em Jornalismo.

“Sempre tive muito apoio da minha família, mas na época de decidir que curso prestar no vestibular, eles achavam que Artes não daria muito dinheiro e nem me sustentaria. Não houve uma repressão ou uma pressão, tipo ‘não faça’, mas acabei optando pela Comunicação”, explica, contando ainda que sempre gostou de escrever, mesmo não sendo algo que lhe brilhasse os olhos.

Foram 13 anos de atuação na área de Comunicação. “Os trabalhos nessa área me abriram muitas portas. Conheci muitas pessoas, que, anos mais tarde, me possibilitariam dar um salto e trabalhar só com desenho”, lembra. Ele se recorda que teve a oportunidade de trabalhar em um importante jornal da região do ABC e, assim, conhecer o trabalho de dois multipremiados cartunistas que admirava muito, o Luiz Carlos Fernandes e o Gilmar Barbosa. “Na época, pude conhecer o dia a dia deles e acabei tomando gosto pela caricatura. Hoje, os dois são amigos e referência pra mim.”

No período em que fez Jornalismo, participou de salões de humor gráfico, em que cada participante se inscrevia em determinadas categorias, como caricatura, charge e cartoon. Ele foi selecionado para participar desses eventos e passou a fazer caricaturas sob encomenda. Também enviava charges para jornais, como voluntário. Com o tempo, deixou um pouco de lado esse tipo de trabalho e passou a mergulhar na ilustração editorial, fazendo desenhos para revistas e jornais. “Isso me abriu muitas portas na área artística”, conta.

b451a5eb criatividade para prosperidade expresso lovatto abre
E Magazine | Expresso (Portugal)

Ele também trabalhou em algumas áreas num dos maiores portais da internet, o UOL. Entre as atividades, foi repórter de Cultura e cobriu entretenimento, exposições de arte, dança, festivais de teatro. Porém, como na vida sempre há altos e baixos, passou um período sem trabalhos na área e trabalhou como bancário durante um ano e meio. “Até trabalhei como cartunista em festas de crianças também”, ri.

Até 2015, ele conciliou os trabalhos na área de Comunicação com a área de Criação. Nessa época, ele já tinha uma quantidade razoável de clientes, o que permitia que ele pagasse suas contas atuando apenas como ilustrador freelancer.

“Fazia o trabalho como jornalista em expediente comercial e, de madrugada ou nos fins de semana, pegava os extras. Como numa vida dupla. Tinha um número legal de clientes, o que comprometia um pouco minha qualidade de vida”, se recorda. E foi nesse momento que refletiu, criou coragem e passou a se dedicar integralmente à carreira de ilustrador. Inês Mendonça, sua amiga de trabalho, foi quem o ajudou nessa reflexão. “Contava e mostrava meus trabalhos para ela, e falava sobre meu desejo de pedir demissão e trabalhar por conta própria. Ela enxergou meu potencial e me incentivou a arriscar”, recorda-se.

Depois disso, passou cerca de um ano trabalhando de casa até que conseguiu realizar mais um sonho: morar no exterior, depois de anos de planejamento.

“Sempre tive vontade de morar fora. Acreditava naquela aura que esse tipo de vivência te ensina muito e abre a cabeça. Eu escolhi morar em Londres, na Inglaterra, porque é um país com muita tradição em artes gráficas, com grandes ilustradores e grandes designers”, explica.

No entanto, a realidade foi um pouco diferente para Lovatto, que tinha na época, 32 anos. “Minha experiência foi um tanto traumática. Primeiro porque eu fui um pouco velho e eu já não estava predisposto a passar tanto perrengue e dividir casa com outras pessoas. E fui perceber isso só quando já estava lá”, explica. Além disso, ele conta também que não se sentia à vontade para conversar com a galera, pois eles são muito reservados.  O segundo ponto é a realidade dura de Londres. “As atividades profissionais não fluíram tanto quanto minhas expectativas. Além disso, o tempo daquela cidade é muito triste. São poucos dias de sol e isso me fez muita falta. Não cheguei a ter depressão, mas eu ficava muito mal, o que me limitava bastante”, lamenta.

Após o breve período em que morou em Londres – um ano e meio -, Lovatto reflete que a experiência em si foi válida (ele foi, temporariamente, chargista de futebol da versão online do jornal diário ‘The Sun’), mas que talvez optasse hoje por fazer um curso de curta duração no exterior. “Acho que as pessoas devem pesar muito antes de ter uma experiência dessas, porque mexe muito com várias partes da vida”, reflete.

a9061c37 criatividade para prosperidade lovatto thesunlondon
The Sun (UK)

Hoje Lovatto se sente privilegiado. É assim que define sua atual situação profissional.

“Hoje vivo do meu trabalho. Há semanas em que estou sobrecarregado e não tenho tempo pra nada. Em outras, estou mais tranquilo. Mas isso tem me permitido viver só disso. Sei que no Brasil isso é exceção”, aponta.

Há uns seis ou sete anos, quando ralava para ter seu portifólio, enviou e-mail e fez ligações para mais de 100 restaurantes do Brasil todo para apresentar o seu trabalho. Afinal, ilustrações de comidas são algo de que gosta muito de fazer.

“Uma única empresa de São Paulo respondeu. O proprietário Renato Veras também estava começando. Sua hamburgueria existia há cerca de um ano e não tinha uma identidade visual definida. Ele me deu um voto de confiança e comecei a trabalhar para ele”, conta.

Inicialmente, o profissional cuidou das artes para redes sociais, mas o trabalho começou a aumentar de proporção e o restaurante começou a prosperar também.

“Passei a ser o responsável por toda a identidade visual daquele empreendimento, desde a pintura das paredes, cardápio, estampas das camisetas até artes temáticas para redes sociais. Isso foi uma grande oportunidade e me abriu muitas portas.”

0e3ee6bb criatividade para prosperidade lovatto parede

Essa iniciativa chegou a tal ponto que outras lanchonetes começaram a assediá-lo profissionalmente (no bom sentido). “Durante alguns anos, eu e o proprietário acordamos pela exclusividade de trabalho no ramo de hamburguerias. Só fazia trabalhos para eles”, explica. “Mas hoje passei a atender outros segmentos, como pizzarias, por exemplo”.

Mais recentemente, em 2018, Lovatto foi atrás de realizar mais um sonho. Entrou numa escola de tatuadores e, depois de concluído o curso básico, passou a atender clientes até conseguir alugar, no final de 2019, uma sala comercial de uso exclusivo. “Acho muito legal estampar meu trabalho na pele de alguém e essa pessoa carregar essa marca com ela”, orgulha-se. “Infelizmente, por conta da pandemia, tive que suspender as atividades por tempo indeterminado, mas espero que, em breve, consiga retomar este lado da minha carreira”.

“Trabalhar com arte é viável no Brasil. Digo isso por mim e por alguns colegas de profissão. Mas um artista, aqui no Brasil, tem que ser aberto a trabalhar em plataformas diferentes. Quanto mais leques o profissional abrir, mais opções pra o cliente ele poderá oferecer e mais economicamente viável será”, explica. Ele também recomenda que o artista se questione o tempo todo para ver se é possível agregar mais opções de trabalho. Isso é importante porque o seu trabalho de hoje pode não fazer mais sentido daqui uns seis meses. A economia do país pode mudar… O artista pode mudar… O mercado pode mudar.

Para Lovatto, o profissional precisa estar atento às necessidades de cada cliente. E isso ele aprendeu na época em que atuava na área de Comunicação.

“Procuro entender quais são as referências que o cliente tem, vou investigando até saber realmente o que ele quer. Não adianta impor o meu gosto, mas o contratante precisa estar familiarizado com o que faço. E isso acontece somente com muito bate-papo. Então, a Comunicação me ajuda até hoje a entender o que o cliente precisa”, aponta.

A marca de seus desenhos é a ironia e a irreverência, buscando referências no humor gráfico, no graffiti, na contracultura norte-americana e até no cinema, embora ele reforce que procura não se ater muito a um só estilo. “Embora comercialmente pudesse ser bom, prefiro experimentar novas formas, mas sempre com uma pitada ácida e irônica”, explica. Do mesmo jeito como prefere ter pausas para criar e relaxar, ao contrário de muitos de seus colegas, essa é a forma que encontrou para continuar criando e se reinventando.

Com todo este talento e versatilidade, qual será o próximo sonho do Lovatto a ser realizado? Ainda não sabemos, mas, sem dúvidas, será um sucesso!

Skip to content