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Histórias inspiradoras de pessoas que investiram na criatividade e empreenderam seus talentos.

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Mari Lemes

as cores da história

Você já parou para pensar, qual a relação entre maquiagem e História? No Egito Antigo, por volta de 3.000 antes de Cristo, as pessoas usavam pigmentos pretos para contornar os olhos e escurecer cílios e sobrancelhas. Milênios mais tarde, tanto na Grécia como na Roma antiga, homens e mulheres utilizavam maquiagem para se embelezar. No entanto, após a queda do Império Romano, no século V depois de Cristo, o uso desses produtos praticamente desapareceu. Durante toda a Idade Média, a vaidade foi encoberta pela rigidez religiosa. Trazendo a história para o Brasil, não podemos esquecer a importância e beleza das pinturas indígenas.

Mas a maquiagem não caracteriza somente povos e civilizações num contexto histórico. A maquiagem carrega um pouco da história de quem a usa. E no caso da maquiadora Mari Lemes, – História, cores e pincéis – compõem a narrativa da sua vida!  

Antes de ser maquiadora, Mari fez graduação em História. Desde pequena, ela gostava tanto do que aprendia na escola que, além de tirar excelentes notas, se imaginava dando aulas sobre a disciplina.

“Acho que a professora também contribuía muito. Conversando com outros professores, eles me incentivaram a estudar História na faculdade. Hoje, refletindo, percebo que foi a profissão que eu pude ter contato na época, na realidade em que eu vivia”, explica.

“Minha educação foi toda em escola pública e minha vida era simples, não saía muito. Geralmente, era de casa para a escola. Já a minha infância foi boa. Tinha vários parentes e primos morando no mesmo quintal, além de uma avó muito amorosa e dos meus tios. Brincávamos juntos com minha irmã, três anos mais velha que eu”, recorda.

A menina Marinalva subia em árvores, brincava com bonecas, bola, gostava de construir brinquedos e de todos os piques possíveis. Na escola, quando estimulada a brincar com as cores, adorava pintar. Afinal, ela se destacava em tudo que envolvia criatividade. Mas, nesse período, a maquiagem como brincadeira de criança era algo bastante restrito.

“Eu passava produtos de maquiagem quando tinha acesso. Minha mãe, vinda do interior de Minas Gerais, também não tinha costume de usar, só em ocasiões especiais. Meu pai não nos deixava usar maquiagem. Das poucas vezes que eu usei, lembro-me de ouvir absurdos por causa disso”, relembra.

Porém, sempre que ganhava batons, ela não usava, mas passava nas bonecas e até nas cachorras, que andavam todas com os focinhos pintados.

“Depois dos meus 12 anos, enquanto meu pai não estava em casa, maquiava minha irmã e minhas primas. Eu adorava! Passava sombra, batom e blush, pois não havia nada para preparar a pele. Então, com 12 anos, fazia maquiagem melhor que minha irmã com 15! Aprendi muito do básico, já adulta, fazendo pesquisas na internet”, orgulha-se.

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Ela terminou a licenciatura em História, fez os estágios obrigatórios e olha só o destino: voltou para a mesma escola em que estudou, dessa vez como estagiária da professora que tanto a inspirava no Ensino Fundamental.

“No entanto, por mais que estivesse em um lugar que passei parte da minha infância, não me sentia confortável com as turmas, mas continuei na profissão, apesar do desconforto. Decidi me dedicar para concursos na área, mas nunca cheguei a dar aula como professora formada, apenas como estagiária”, relata.

Ainda assim, se aperfeiçoou na área. Fez uma pós-graduação em História da África, em um dos primeiros cursos disponíveis na área. Ela decidiu se especializar nesse tema porque durante o tempo em que passou na faculdade, percebeu que dentro da disciplina de História, gostava mais das temáticas relacionadas à História Antiga, Idade Média e História de África.

“Pra minha sorte, o conteúdo sobre o continente africano foi incluído na grade curricular por conta da Lei 10.639/2003 e, consequentemente, a Lei 11.645/2008, que estabeleceram a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura afro-brasileira e indígena no currículo oficial. Além de gostar do tema, me identifiquei também por ser negra. Na pós-graduação, percebi o quanto precisava dela, não para minha formação acadêmica, mas para minha formação como pessoa. Muito da minha história me foi negada ou foi contada como uma versão única de escravidão. Isso se deve ao fato de os estudos em História em nosso país serem focados numa visão muito eurocêntrica, até mesmo na graduação. Na pós, me descobri negra, descobri meu lugar de fala e lá me encontrei como pessoa! Gostei mais de cursar a pós-graduação do que a graduação. Mas não a concluí, cumpri toda a carga horária, mas não entreguei o trabalho de conclusão”, desabafa.

Esta decisão não foi por rebeldia, falta de disciplina ou descaso com a profissão. Mari foi acometida por algo que, hoje, aflige milhões de pessoas em todo o mundo. No final de 2016, último período da sua pós-graduação, ela começou a ter crises de ansiedade, síndrome de pânico e, por fim, depressão. Passou meses deitada, sem sair de casa e precisou de apoio psicológico e psiquiátrico. Felizmente, este período de reclusão, só veio a confirmar que ela realmente gostava de História, em especial a da África, e o quanto ela foi essencial para seu autoconhecimento.

“Amava e amo ler sobre estes assuntos até hoje, porém não era minha profissão, não era algo que amava fazer. Na realidade, nunca quis dar aulas. Trabalhar como pesquisadora até me encantava, mas não me enchia os olhos. Então, decidi não entregar o trabalho de conclusão e começar a fazer meu primeiro curso profissional de maquiagem no Senac.”

Como é de se imaginar, os primeiros meses não foram nada fáceis. Muita gente, inclusive, a questionava sobre largar um diploma para ser maquiadora.

“Mas, já no primeiro dia de curso, lembro-me de como me senti realizada! A gente só descobre o nosso caminho quando tem prazer de caminhar por ele. Comecei a emendar um curso atrás do outro. Tento ser uma maquiadora completa, pois não se trata só de maquiar e sim, de entender de cor, de luz, desenho, escultura, pintura, arte, entre outros elementos”, orgulha-se.

Atualmente, Mari tem como nicho a maquiagem de beleza. Eventualmente, faz trabalhos de caracterizações e efeitos e, com menos frequência, especialmente no Carnaval, trabalha com pintura corporal.

“Sinceramente, até hoje, não decidi qual tipo gosto mais. Gosto de criar maquiagem independente do nicho. Na maquiagem de beleza, gosto da individualidade de cada rosto e de olhar e realçar o que ele tem. Na maquiagem de caracterização e de efeitos, curto brincar na construção de personagens com todo um estudo por traz [olha a História aí]. E na pintura corporal, me sinto um pintor diante de uma tela em branco. São sentimentos diferentes”, reflete.

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O tom da voz até muda quando o assunto são seus trabalhos. Falar deles agora é algo prazeroso e que lhe faz brilhar os olhos. Ela destaca como seus preferidos, uma maquiagem de beleza e uma caracterização que produziu como trabalho de finalização de curso, onde criou um personagem completo, dos pés até a cabeça.

“Ele representou os momentos difíceis que eu tinha passado até então. O outro foi uma maquiagem de beleza que fui fazer e quando cheguei ao local, a cliente estava sozinha e chorava muito. Era o dia do aniversário dela e ela queria se sentir melhor. Aos poucos, consegui consolá-la e, no fim do trabalho, quando ela se olhou no espelho, me abraçou, sorriu e me agradeceu muito. Ali percebi que minha profissão não se resumia apenas ao ato de maquiar, mas de desconstruir padrões de beleza e levar autoestima a quem precisasse”, orgulha-se.

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Apesar do entusiasmo, a falta de reconhecimento e a desvalorização da profissão são as maiores dificuldades pontuadas por Mari. Mas, para ela, viver de arte no Brasil ainda é possível.

“As condições já foram melhores, hoje, está um pouco mais difícil, principalmente com o momento do atual governo”, afirma.

Para contornar isso, ela demonstra cada vez mais o seu entendimento sobre o assunto, valorizando e promovendo seu trabalho e a sua profissão.

“Sei que o conhecimento adquirido ao longo da vida é usado de várias formas e em diversas situações, ele não é limitado a um lugar ou uma profissão. Achava que minha graduação só serviria no meio acadêmico, mas não. Meu conhecimento sobre História transita pela maquiagem nas minhas produções. Já ajudei a equipe de produção de um filme a montar personagens, desde figurino a penteados de época. Recomendei tirar objetos de cena por não fazerem parte do período abordado”, conta.

E Mari não para aí: continua estudando e enriquecendo seu repertório artístico. Recentemente, tem ampliado seus conhecimentos em fotografia, formação importantíssima para conquistar o que mais sonha em sua carreira: fazer uma grande produção de cinema!

Com sua delicadeza e profissionalismo, Mari espalha beleza e cor por onde passa.
Com toda essa bagagem e dedicação, logo veremos o brilho do seu talento encantando muitas estreias de filmes.

Clique aqui para ver um tutorial maquiagem no Instagram.

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