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Histórias inspiradoras de pessoas que investiram na criatividade e empreenderam seus talentos.

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Selma Maria

menina inquieta

Selma Maria é escritora, atriz, arte-educadora, curadora de exposições. Inquieta e curiosa, ela pesquisa brinquedos e o brincar das crianças. Costuma escrever quase todos os dias, pois, para ela, a palavra é um brinquedo. O resultado? Mais de 13 livros publicados, sete exposições e outros tantos trabalhos e brincadeiras.

Toda essa história começou com o Teatro, alternativa encontrada para vencer a timidez na infância. Na sequência, cursou Artes Visuais. Porém, para Selma, se tornar mãe foi sua grande escola.

“Foi a maternidade que me ensinou a ter escuta da criança, entender a sensibilidade infantil inspirada na natureza, o brincar com o corpo, o neologismo das crianças, que sempre são poetas. Tive três maravilhas que me ensinaram isso, juntamente com seus amigos”, conta.

Seus três filhos seguiram o trabalho artístico da mãe, cada qual em uma área diferente, mas sempre se cruzando, se apoiando e contribuindo para a construção de suas trajetórias.

Por falar em crianças, suas lembranças de infância são da roça, na cidade de Itu, interior de São Paulo. Ouvia o cantor Zé Béttio ao lado do pai, e sentia o cheiro de café passado no coador, antes de ir para a escola com os irmãos.

Eu também vivia na natureza brincando com pedra, argila, semente, montanhas, cachoeira. Fazia panela de barro para as bonecas, colar de argila, construía cidades com o meu irmão. Adorava nadar, andar de bicicleta, amava e amo futebol, jogar bola, tudo muito livre”, lembra Selma.

Ela brincava tanto que só retornava para casa no fim da tarde.

 “Voltava para casa toda empoeirada, o cabelo duro de tanto pó, suada. Na roça, a mãe perde o controle dos filhos. Lembro-me de pisar na lama, de marcar com o sapato o chão molhado, de ouvir grilo, ver vagalume, me encantar com as flores que a própria natureza plantava nos morros por onde passávamos”, continua. Selma também conta que gostava muito de ler Monteiro Lobato, desenhar, escrever cartas para uma prima que morava em Manaus e tudo o que pudesse ser feito com as mãos.

O tempo passou e, com seus vinte e poucos anos, foi para a Amazônia. O brincar do Brasil profundo, como ela prefere dizer, a impactou.

 “Em especial, me lembro de uma cena que eu vi ao lado do Rio Madeira. Era um grupo de idosos, adolescentes e crianças fazendo rodas, brincando de rodar, cantar, mexer o corpo. Era um brincar intergeracional. Eu vi duas tias já adultas que brincavam sem vergonha alguma com as crianças, sem qualquer trava, muito soltas. E isso me impactou muito”, conta.

Anos depois, conheceu o curso Brincante, que ensina a arte do brincante para educadores. Na época, ela dava aula de artes para crianças em uma escola da cidade de Sapucaia do Norte, em Minas Gerais.

Foi uma janela, uma porta, um portão que se abriu para mim. Ali começou novamente a pesquisa do brincar, e durante essa ação, comecei a viajar pelo estado”, pontua.

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Arquivo familiar

Selma relembra que neste período conheceu alguns festivais de brinquedos, entre eles, um chamado de “Piões, Piorras e Carrapetas”, de Belo Horizonte, e foi parar no sertão de Minas Gerais, o sertão de Guimarães Rosa, que influenciou toda a obra do autor.

“Eu cheguei lá para dar aula de pião, que é um brinquedo que eu sou encantada e tenho uma coleção gigante. Mas, ao invés disso, mais aprendi. A educação tem disso, né? A gente mais aprende que ensina. Foi aí que eu me encantei com esse universo do brincar”, reflete Selma, que passou a se debruçar ainda mais nas pesquisas. Ali, conheceu Marily Bezerra, que aglutinava vários estudos sobre a obra de Guimarães Rosa, e Sandra Vasconcelos, uma professora da Universidade de São Paulo (USP). Surgiu então, o assunto de que o autor tinha um sonho de escrever sobre os brinquedos da sua infância no sertão de Minas Gerais.

“Isso soou como uma bomba na minha cabeça, pois tinha tudo a ver com a pesquisa que eu estava fazendo. Eu já guardava comigo diversos brinquedos que juntava em cada viagem. Aí, eu perguntei se eu poderia escrever esse livro. A resposta foi que sim!”

E neste contexto que, em 2006, surgiu o seu primeiro grande projeto, a “Exposição Meninos Quietos”, que trouxe brinquedos e brincadeiras das crianças do sertão de Minas Gerais, presentes nas obras de Guimarães Rosa. Além da capital paulista, a exposição circulou por diversas cidades do interior, como Piracicaba e Ribeirão Preto, e Belo Horizonte e Morro da Garça, ambas em Minas Gerais. Só em São Paulo, no Sesc Pinheiros, a exposição recebeu mais de 50 mil visitantes durante dois meses.

“O que mais me emociona nisso tudo é que, cada brinquedo que eu encontrava durante as pesquisas tinha uma história, tinha um encontro humano carregado de emoções, de saberes e de fazeres de um Brasil muito profundo. Eram brinquedos feitos com a natureza, que faz parte da vida de qualquer criança do mundo. O que muda é a geografia de cada lugar, as plantas, os animais, o terreno”, explica.

Após o sucesso da exposição, Selma tinha expectativas de receber alguns apoios  importantes. Mas não foi isso que aconteceu e, este momento de frustração, fez com que ela abusasse da criatividade para se reinventar: decidiu escrever os poemas presentes na exposição fazendo nascer ali, a Selma poeta e escritora.

“Esse processo todo mexeu muito comigo. Essa vontade de ser escritora já estava dentro de mim. Era uma semente e brotou. Hoje, eu escrevo todos os dias, ou quase todos. Quando eu escrevo, eu fico ali matutando cada palavra. Como disse o poeta José Paulo Paes, “quanto mais a gente usa esse brinquedo, que é a palavra, mais novo ele fica”, reflete.

Seu primeiro livro, Um Pequeno Tratado de Brinquedos para Meninos Quietos, lançado pela Editora Peirópolis, em 2009, é resultado do encontro das poesias com a infância do sertão mineiro e traz os muitos jeitos de brincar das pessoas daquela região.

E como nas viradas de páginas de um livro, um novo capítulo surgiu em sua vida: pesquisar as brincadeiras em Portugal.

Luanda Bonadio que me trouxe a oportunidade de participar de um edital do Ministério da Cultura. A editora do meu primeiro livro fez as pontes lá em Portugal e outra amiga que vive lá, também me apoiou. Isso foi em 2011, e eu fiquei um mês no país. Fui conhecer o interior, cheguei sozinha e me encantei pela língua portuguesa falada, pela sonoridade. Aí nasceu uma exposição, e vi que o que determina o brincar é a geografia do lugar. Lá, as crianças fazem um barquinho com a casca de uma noz! Aqui, usamos o meriti ou o buriti. E aí eu fiz uma ponte com o que tem igual e o diferente”, explica.

Livro Brinquedos miúdos e graúdos por Selma Maria | Editora Estrela Cultural

Atenta a tudo a sua volta, Selma conta que seu processo de criação é muito variado.

Tem livro que escrevo em uma hora. Tem livro que escrevo há seis anos. Tem exposição que surge do nada, que nem dá pra lembrar o momento exato. Mas, sempre observando o mundo, tendo um olhar poético, uma escuta atenta. Sempre ouço as crianças porque elas são poetas. Tudo me inspira: um bicho, uma planta, uma criança, um adulto ou algo que me entristece. Para mim, a grande pesquisa é o brincar. Tudo no mundo é um brinquedo”, conta.

Para o futuro, seus sonhos são extremamente humanos.

Eu queria chegar num futuro em que a gente não maltratasse mais a natureza. Eu tento trazer essa consciência para dentro dos meus trabalhos. Em toda exposição, utilizo materiais que não prejudicam a natureza, porque seria uma incoerência minha destruir a natureza de que tanto falo nas exposições. Então, procuro torná-las o mais sustentável possível”, aponta. Além disso, sonha levar suas letras para outros territórios de língua portuguesa, no continente africano.

“Quero muito conhecer esses outros jeitos de falar Português, de brincar e de se relacionar com a natureza. E com esse trabalho poder ajudar na alfabetização por meio das brincadeiras que eu faço com as palavras”, vislumbra.

Flipinha 2016

Selma é o tipo de pessoa criativa que faz dos seus talentos, a sua profissão. A menina inquieta transforma brincadeiras em trabalho, o trabalho em arte, a arte em poesia e a poesia em educação. Selma transforma suas brincadeiras e criatividade em prosperidade e inspira, não só seus filhos, mas todos que estão à sua volta, incentivando-os a serem livres para sonhar, brincar e trabalhar.

Que papelão!

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